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Varejo fraco incita aposta em corte da Selic - Valor Econômico

Os dados de vendas no varejo de março com mais indícios de que a economia está patinando e as sinalizações dadas pelo Banco Central sobre a trajetória da política monetária abriram espaço para nova queda nos juros futuros. Mesmo que gradualmente, o mercado volta a aumentar a probabilidade de uma nova rodada de corte da Selic. As taxas dos contratos de curto prazo, mais sensíveis ao debate sobre o caminho do juro básico, caíram do começo ao fim da sessão.

O DI para janeiro de 2021 recuou de 7% para 6,91%, com forte volume de negociações - o giro financeiro foi o mais intenso desde 27 de março. A trajetória foi registrada mesmo com o dia negativo no exterior com o noticiário envolvendo a disputa comercial entre Estados Unidos e China, o que derrubou o real e o Ibovespa. Em dias assim, as taxas normalmente operam em alta, com aumento do prêmio de risco. Mas não ontem. O movimento aconteceu porque parte do mercado entende que o Banco Central começa a preparar o terreno para um eventual corte na taxa básica de juros, após a decisão de manter a Selic estável em 6,5% ao ano.

O balanço de riscos descrito pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC continua simétrico, mas se moveu marginalmente para um patamar mais confortável, na visão de analistas. E é aí que começa a aparecer a brecha para a flexibilização monetária. Isso porque o Copom reforçou a leitura de uma atividade econômica decepcionante. Os analistas da Oxford Economics, por exemplo, passaram a projetar queda da Selic para 5,5% até o fim do ano. Antes, a expectativa era de estabilidade da taxa em 6,5%. "Acreditamos que uma recuperação persistentemente decepcionante em um ambiente de inflação abaixo da meta levará o Banco Central a reduzir as taxas de juros", aponta a instituição em relatório, assinado pelo economista-chefe para América Latina, Marcos Casarin.

As alterações no comunicado do Copom sugerem que a autoridade está menos otimista quanto ao ritmo de recuperação da atividade econômica, aponta o Itaú Unibanco. "Embora insistindo na necessidade de esperar por mais clareza no fronte de reformas, as autoridades parecem inclinadas a reavaliar a adequação do atual estímulo monetário na economia, caso a atividade não se fortaleça nos próximos meses", afirma a equipe de análise econômica do banco, liderada por Mario Mesquita. "Acreditamos que os riscos de baixa para a trajetória de inflação tendem a prevalecer, após a aprovação da reforma da Previdência, o que levará as autoridades a retomar a flexibilização monetária, mas não antes de setembro."

Para o Bradesco, o Copom deixou aberta a possibilidade de uma discussão sobre corte de juros em algum momento do ano, ainda que tal movimento não seja iminente. "Evidentemente, essa possibilidade dependerá de um contexto de atividade econômica fraca e expectativas de inflação bem ancoradas", afirma a equipe de pesquisa econômica em relatório, assinado pelo economista-chefe do banco, Fernando Honorato. Esse cenário passaria por algum alívio no câmbio, o que poderia ocorrer com o avanço na agenda de reformas e um quadro global mais estável.

O gestor de um grande fundo afirma que a comunicação do Banco Central veio dentro do esperado, abrindo espaço para a discussão do corte, mas com a autoridade pedindo tempo para avaliar a conjuntura macroeconômica e o avanço das reformas. "Agora não é a hora de mexer nos juros, o que a economia precisa para voltar a crescer é a aprovação da reforma da Previdência. A atividade não está travada por causa de juros altos", diz. Segundo esse profissional, a frustração com os dados de vendas no varejo, divulgados ontem, tiveram grande influência no movimento do mercado. A atividade no varejo restrito - que considera oito atividades (excluindo automóveis e materiais de construção) - teve alta de 0,3% em março ante fevereiro, com ajuste sazonal, abaixo da expectativa no mercado, de alta de 1%. "O comunicado foi neutro.

O que o Copom deu com uma mão, tirou com a outra", afirma Roberto Secemski, economista para Brasil no Barclays. "De um lado, teve indicação do risco associado à desaceleração econômica. Ao mesmo tempo, vimos a mudança da caracterização dos núcleos de inflação de 'apropriados ou confortáveis' para apenas 'apropriados'", completa. O economista não tem corte de juros no seu horizonte, espera que a Selic chegue ao fim do ano em 7%, cenário condicionado à recuperação da economia no segundo semestre. "Vemos risco de postergar a normalização da política monetária, não de cortes."

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