Federação Nacional dos Sindicatos de Empresas de Recursos Humanos, Trabalho Temporário e Terceirizado

Para jovens, empreender é opção além do emprego - Valor Econômico

Empreender logo no começo da carreira pode soar arriscado ou até impensável para muita gente, mas há uma quantidade crescente de jovens brasileiros interessados nessa opção de carreira. São jovens tirando ideias do papel com vinte e poucos anos e colocando em prática negócios nos quais acreditam. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostram que aumentou a parcela de jovens (de 18 a 24 anos) entre os empreendedores no Brasil em 2018. Ano passado, essa faixa etária representava 22,2% do total, contra 18,9% em 2017 e 17,1% em 2013.

Ampliando-se a faixa etária até os 34 anos, os jovens representam 50,5% do total de empreendedores no país, levando em conta todas as faixas de renda analisadas (apesar de enquadrar os empreendedores em função dos ganhos, a pesquisa não cruza esses dados com a faixa etária). Ao mesmo tempo, a GEM também aponta que aumentou a quantidade de pessoas que empreendem por oportunidade: 61,8% em 2018 contra 56,5% em 2015. Esse grupo é composto por pessoas que identificaram uma oportunidade de negócio e decidiram empreender, em contraposição a 37,5% que abriram um negócio por necessidade. De 2014 para 2015, por conta da crise econômica, houve a maior queda no índice dos que empreendiam por oportunidade.

Um quadro que começa aos poucos a ser revertido, segundo a pesquisa. A vontade de trabalhar com algo que dê sentido à vida, aliás, é o principal motivador para muitos jovens optarem pela carreira empreendedora. Uma pesquisa realizada pela Fundação Telefônica Vivo em parceria com Ibope Inteligência e Rede Conhecimento Social apontou que 55% dos jovens entre 15 e 29 anos ouvidos acreditam que empreender é conseguir "colocar em prática os seus sonhos". Segundo o mesmo levantamento, 64% concordam que empreendedorismo é mais do que ter um negócio, é "ter atitude, iniciativa e criatividade". "Para o jovem, o trabalho não é só uma remuneração financeira. É também, mas é se sentir útil, perceber que o que ele faz tem significado e sentido para o mundo", afirma Danilca Galdini, diretora de pesquisa da Cia de Talentos. A vontade de trabalhar em algo que realmente fizesse sentido para sua vida foi o que motivou Luiza Coutinho, 23, e Bruno Campos, 24, a criarem a Langai, marca de surfe para mulheres. Ela estudante de moda, ele de administração, ambos surfistas, perceberam que não havia no mercado brasileiro uma marca de surfe exclusiva para o público feminino. "As marcas são voltadas para homens e têm uma linha para as mulheres e, ainda assim, é só a roupa, não têm a preocupação de inspirar as mulheres a entrarem na água", diz Luiza. A intenção dela com a Langai era, além de fazer roupas e pranchas para o público feminino de forma sustentável, incentivar e empoderar as mulheres a praticarem o surfe. 

Por isso, além do e-commerce e da loja física no Rio de Janeiro, de produzir tudo localmente e de usar tecidos ecológicos, a Langai mantém uma comunidade online ativa de mulheres - surfistas e aspirantes a surfistas -, onde se trocam experiências e informações sobre o esporte. "Eu queria fazer algo que realmente amasse, algo em que eu acreditasse no propósito, então nem cheguei a procurar estágio em uma empresa", conta Luiza. Campos entrou com mais cautela na empreitada. "Ele entrou para ajudar na estrutura, na estratégia e no financeiro porque não adiantava ter só a criação. Mas quando as coisas começaram a dar certo e vimos o potencial, ele embarcou."

Trabalhar com algo que fizesse sentido levou Tomás Abrahão, 28, a deixar o estágio em uma consultoria estratégica para criar a Raizs, empresa que conecta pequenos produtores rurais ao consumidor final. No site da Raizs, o consumidor escolhe suas frutas, legumes, pães e outros produtos orgânicos e recebe em casa tudo fresco, originário de agricultores familiares. "Eu olhava para o sistema e não acreditava naquele modelo de trabalho, na cultura organizacional imposta e o propósito não tinha profundidade. Aí foi o momento de criar a Raizs", diz Abrahão. "Eu não me via feliz naquele modelo." A ideia de criar a empresa surgiu em 2014 e o negócio começou a funcionar em 2016. "Muita gente me falava para trabalhar em outras empresas antes, para depois empreender. Claro que a experiência de trabalho é válida, mas há várias maneiras de absorver o conhecimento.

Pode ser conversando, trocando, tomando café, sem contar que se aprende muito fazendo", diz o empreendedor. "Tomar café, aliás, sempre foi muito importante para mim. Costumo me aconselhar com quem tem mais experiência." Errar, frisa Abrahão, faz parte da jornada de um jovem empreendedor. "Eu não via a importância de algumas áreas, como cultura, gestão de pessoas e até o financeiro". O importante, segundo ele, é olhar para isso e, a partir daí, implementar o que precisa ser feito para corrigir o rumo. "Ou eu ia atrás de livros e artigos que pudessem me ajudar ou falava com algumas pessoas." Crítico da cultura organizacional de empresas mais tradicionais, Abrahão diz que na Raizs ninguém tem horário de trabalho definido e não existe a palavra chefe. Há horizontalidade na gestão. Com 16 mil clientes ativos, a empresa tem 25 funcionários.

Desde a adolescência Ofli Guimarães, 33, teve negócios próprios, mas fazer algo com o propósito claro de impactar positivamente a sociedade foi uma ideia que surgiu no fim da faculdade. "Sempre optei pelo empreendedorismo pelo exemplo que tive em casa. Meu pai sempre teve muitos negócios, alguns deram errado e outros deram certo", diz. Aos 17, ainda na escola, Guimarães abriu uma lanchonete com a mãe. "O que entrava só pagava as contas, e dava muito trabalho, não sobrava dinheiro. Ficamos um ano nisso." Depois, ele teve fábrica de roupas e aluguel de máquinas para construção civil. Já na faculdade, Guimarães começou a empreender no mercado financeiro. Aluno de economia, ele o colega Israel Salmen, 30, davam cursos sobre finanças pessoais, bolsa de valores e investimento. A partir daí montaram uma gestora de investimentos.

A gestora ia bem, dava dinheiro, mas Guimarães começou a sentir falta do tal propósito. "Eu sentia um incômodo, porque não era um negócio onde todo mundo ganhava. No mercado financeiro, para um ganhar dinheiro, outro perde, o dinheiro fica trocando de mão. Percebemos que não queríamos fazer aquilo para o resto da vida", conta o empreendedor. A decisão foi vender a empresa. "Abrimos mão de um negócio que estava dando certo." Fim da faculdade e os dois, Guimarães e Salmen, estavam sem trabalho, mas a opção para eles não era procurar emprego. Tiveram, então, a ideia de criar o Méliuz, um sistema de "cashback" que devolve aos clientes parte do valor gasto em compras. Isso foi em 2011. "A ideia do Méliuz surgiu para acabar com o nosso incômodo, e abrimos um negócio onde todos ganhassem", diz Guimarães. Até hoje, o Méliuz já devolveu R$ 78 milhões aos usuários e a empresa tem, atualmente, 150 funcionários em São Paulo, Belo Horizonte e Manaus A maior dificuldade de empreender sem ter sido funcionário antes apareceu na área de RH do Méliuz. "A gente tinha dificuldade para encontrar as pessoas certas e retê-las", diz Guimarães. "Aprendemos com os nossos próprios erros. Fomos aprendendo o que não fazer, e hoje somos referência em qualidade de time. Conseguimos trazer pessoas muito boas e retê-las." Quando diz ser referência em gestão de pessoas, Guimarães se refere a prêmios conquistados que chancelam o Méliuz como boa empresa para se trabalhar.

De outro lado, o empreendedor vê vantagens por não ter passado por outras companhias. "Não trouxemos vícios e conseguimos criar um ambiente de trabalho mais saudável." Foi também o propósito que fez Stephanie Stein, 29, fechar a sua empresa de joias de design personalizadas para empreender na empresa fundada pelo pai há 36 anos, a S. Stein Joalheiros, com 14 lojas em São Paulo. "Como eu vendia peças de design, sazonais, percebi que estava fazendo minhas clientes comprarem itens com menor durabilidade, pela questão da moda, o que as levava a comprarem mais", diz Stephanie. "Isso começou a me incomodar." Ao mesmo tempo, a jovem empreendedora percebeu que poderia impactar mais pessoas na empresa do pai, que tem como compromisso democratizar o acesso à joia. Ao entrar na S. Stein, mesmo já tendo empreendido seu próprio negócio antes, Stephanie passou por todas as áreas da empresa. Foi secretária da presidência, trabalhou na área de desenvolvimento, estoque, compras e hoje é diretora de marketing. A visão ampla do negócio e a consciência de retornar valor para a sociedade a fizeram propor internamente a nacionalização da produção. "A gente ganha dinheiro aqui. Faz pouco sentido eu fomentar o varejo nacional e colocar os recursos fora", diz a empreendedora.

Hoje, 93% da produção é brasileira, e apenas algumas matérias-primas (sem similares nacionais com a mesma qualidade) vêm do exterior. Sobre a escolha por empreender, Stephanie diz que nunca pensou em seguir carreira corporativa. "Empreender dá um poder de realização." Além de cada vez mais jovens optarem pelo empreendedorismo, essa geração parece estar mais consciente de como é administrar a própria empresa. A fantasia de que ser dono do próprio negócio é fácil e oferece garantia de bons lucros e de pouco trabalho parece não pairar mais no imaginário coletivo. "Há cinco anos o foco era só nas coisas boas. Pouca gente colocava no papel as dificuldades, mas pela quantidade de informações disponíveis, isso está mais claro", diz Danilca.

Segundo a pesquisa da Fundação Telefônica Vivo, 44% dos jovens não acreditam que o empreendedorismo seja a melhor forma de ganhar dinheiro. A definição de sucesso, aliás, também não é medida somente pelo retorno financeiro, embora ele tenha peso: 60% acreditam que sucesso é ter um negócio de impacto com benefícios pessoais e para sociedade e 56% dizem que sucesso é ter um bom lucro. O coach Felipe Maluf faz um contraponto. Para ele, o empreendedorismo tem mais holofote hoje do que nunca, o que evidencia muitos aspectos positivos da carreira solo, como trabalhar com o que se ama, a possibilidade de refletir um estilo de vida no escritório, a questão do propósito e o ideal de solucionar um problema do mundo. "É uma opção que aparenta ser muito interessante e isso chama a atenção do jovem, mas não podemos esquecer da estatística elevada dos negócios que não dão certo", diz Maluf. "Não vejo problema em empreender quando se é jovem, mas é importante refletir sobre estar ou não preparado emocional e profissionalmente para essa opção de carreira."

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