Federação Nacional dos Sindicatos de Empresas de Recursos Humanos, Trabalho Temporário e Terceirizado

Precisamos de ciências humanas e tecnologia - Valor Econômico

Enquanto companhias em todo o mundo correm para se adequar às transformações digitais e celebram os avanços da inteligência artificial, os especialistas em educação se esforçam para saber como preparar os profissionais que vão transitar por esse novo mundo do trabalho. E quem pensa que o mergulho no estudo da tecnologia tem sido o único caminho apontado se engana. "Precisamos de mais filósofos, sociólogos e psicólogos que pensem e entendam de tecnologia e negócios", diz Peter Todd, reitor da HEC Paris, uma das mais importantes escolas de negócios do mundo, que figura nos principais rankings do "Financial Times".

Formado em tecnologia da informação, Todd é canadense e assumiu o comando da escola em 2015. Desde então, tem impulsionado parcerias internacionais e investimentos no ensino digital. Ele defende que as competências técnicas vão ser úteis, mas que o fundamental para os profissionais do futuro será a habilidade de aprender, ser persuasivo e saber fazer as perguntas certas. "As ciências sociais são fundamentais porque ajudam a construir esse pensamento crítico", disse em entrevista ao Valor.

Em sua opinião, cabe às escolas fazer com que os alunos possam trazer à tona grandes questões usando a lógica e sintetizando o que vai ser mais importante daqui para a frente. "Trabalhei muito tempo com TI e posso afirmar que os grandes problemas nas organizações não vêm da tecnologia, mas das relações humanas", diz. Por essa razão, as grandes perguntas do futuro, segundo ele, estão relacionadas a como usaremos efetivamente o desenvolvimento de "machine learning" e de inteligência artificial para o bem econômico e como teremos certeza de que não estamos fazendo mal para a sociedade. "Precisamos olhar as dimensões éticas e sociais do uso da tecnologia", afirma.

A preocupação da HEC tem sido montar um currículo que inclua ferramentas para que os alunos atuem em processos de disrupção digital mas que, ao mesmo tempo, desenvolvam responsabilidade social. Todd diz que os cursos de MBA tradicionais passam por um período de estagnação nas grandes escolas de negócios. Os jovens, segundo ele, estão buscando cursos em que possam ter experiência de trabalho logo após a graduação. "Na Europa, os 'masters' são cada vez mais populares."

Para atender a essa demanda dos mais novos, a escola vem incluindo nos cursos, além de ciências de dados, matérias relacionadas à inovação e ao empreendedorismo social. "Vemos que as pessoas buscam um propósito no que vão fazer na vida e no trabalho e que a educação é um meio para se chegar a isso". O reitor diz que o ensino de liderança, por exemplo, versa mais sobre a contribuição para a sociedade, de uma forma mais ampla, do que sobre ganhos financeiros. "Oferecemos intercâmbio com ONGs na África, por exemplo, porque queremos que os jovens passem um tempo atuando diretamente em causas sociais antes de ingressarem no mercado de trabalho."

As inovações nos cursos, segundo Todd, passam por parcerias para oferecer dupla titulação em países da Ásia, nos Estados Unidos e na América Latina. No Brasil, a HEC oferece uma pós com dupla titulação com a Fundação Getulio Vargas e também o intercâmbio de alunos em um módulo do programa de MBA da Fundação Dom Cabral. Na França, a HEC firmou uma parceria com o Institut Polytechnique de Paris, na área de engenharia e inovação tecnológica. Na maneira de ensinar, as transformações estão acontecendo no ensino on-line.

A HEC foi uma das pioneiras a oferecer Moocs (cursos gratuitos on-line) e desde o ano passado foi a primeira grande escola de negócios do mundo a oferecer uma pósgraduação inteiramente on-line sobre inovação e empreendedorismo por meio da plataforma Coursera. A duração é de 18 meses e o custo é de € 20 mil. "Foi importante porque atraímos empreendedores muito ocupados para poder frequentar um curso presencial. Esse também se tornou um espaço onde conseguimos misturar pessoas com 20 e poucos anos com outras de 50 e até 60 anos, o que não acontece em uma sala de aula tradicional." O reitor conta que o modelo de ensino on-line representa hoje quase 3% do número de horas de aulas e, em torno de 5% do faturamento da área de ensino executivo, que é de quase € 60 milhões por ano. "Esse é um negócio que ainda está começando para nós, existem poucas escolas no nosso nível oferecendo certificação on-line.

Queremos aumentar nossa capacidade de oferecer um conteúdo digital diferenciado", afirma. O desafio é atrair professores com expertise para isso. "Quando começamos com os Moocs tínhamos 10 professores especialistas, agora temos mais de 30 e queremos ter mais". Um dos centros de pesquisa da escola voltado para a sociedade e organizações criado em 2008, logo após a crise, é uma fonte de talentos para a instituição. "Há três anos, tínhamos 25 pesquisadores, agora temos 40. Achamos muito importante investir nessa área porque a pesquisa alimenta os professores e eles ficam mais engajamos com as companhias." Para Todd, é cada vez mais importante que existam pesquisas voltada para o negócio e para sociedade.

Com 4,5 mil alunos, de 110 nacionalidades diferentes- porém 50% franceses-, a HEC é uma das escolas de negócios com uma das maiores participações femininas em sala de aula. Nos programas de mestrado elas representam 45% dos estudantes e no MBA são mais de 30%. Entre os 150 professores, 110 são titulares e 40 afiliados. Entre os pesquisadores, dois terços vêm de fora do país. "É importante ter sempre mais diversidade, de gênero, de cultura, sócio-economica, queremos tudo isso no campus porque esse é o futuro."

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