Federação Nacional dos Sindicatos de Empresas de Recursos Humanos, Trabalho Temporário e Terceirizado

Após sindicatos e governos, GM negocia com fornecedor - Valor Econômico

O plano de enxugamento de custos da General Motors no Brasil entra em nova etapa. O Valor apurou que o presidente da companhia no Mercosul, Carlos Zarlenga, terá uma reunião, hoje, com dezenas de fabricantes de peças com potencial para ser escolhidos como fornecedores dos futuros lançamentos de carros. O desenvolvimento dos projetos desses veículos está atrelado a um novo ciclo de investimentos no país que, segundo Zarlenga tem dito a sindicalistas e integrantes do governo, só será liberado pela matriz mediante uma drástica redução de custos.

Na área trabalhista, os planos do executivo são mais ambiciosos do que inicialmente aparentavam. As negociações para uma revisão de contratos trabalhistas e benefícios não envolvem apenas as duas fábricas da montadora em São Paulo - São Caetano do Sul, no ABC, e São José dos Campos, no interior do Estado. Segundo fontes ouvidas pelo Valor, a direção da empresa já iniciou conversas com representantes dos sindicatos dos metalúrgicos de Gravataí (RS) e de Joinville (SC), onde estão as outras duas fábricas brasileiras da companhia. Em Gravataí são produzidos automóveis e em Joinville, motores.

Assim como em São Caetano do Sul, essas duas fábricas receberam investimentos recentemente, que fazem parte do último pacote de investimentos da GM, de R$ 13 bilhões, para o período entre 2014 e 2020. Trata-se do maior pacote de investimentos da história da montadora no país e um dos maiores da indústria automobilística.

A unidade de São Caetano do Sul acaba de receber R$ 1,2 bilhão para a total modernização das linhas de produção. Com aporte de R$ 1,9 bilhão, em Joinville a produção de motores está sendo quadruplicada. Em Gravataí, que recebeu R$ 1,4 bilhão, foram abertos novos postos de trabalho no fim de 2017 e desde então a fábrica opera em três turnos.

Em São José dos Campos, a situação é mais complicada, o que enfraquece negociações do lado dos trabalhadores. Num histórico relacionamento tenso com o sindicato local, há anos a GM não inclui a fábrica de São José, onde são produzidas picapes, nos programas de investimentos. São José estaria inserida nos próximos programas de investimentos. Mas, para isso, a empresa deve jogar duro com o sindicato.

O plano foi traçado no ano passado e parte das negociações começou há várias semanas. O projeto de enxugamento foi, no entanto, mantido em sigilo até o dia 18 deste mês, quando cópias de uma carta de Zarlenga dirigida aos funcionários, explicando a situação, foram espalhadas pelos murais das fábricas. Em tom de desabafo, a carta, que chegou para muitos também por e-mail, relatou aos empregados que a matriz ameaçava não investir mais na América do Sul caso não conseguisse reverter os prejuízos na região.

O encontro com os fabricantes de componentes, hoje, tende a ser claro, direto e óbvio. Como em qualquer negociação dessa natureza, ganha o contrato para ser o fornecedor de novo projeto de veículo aquele que oferecer qualidade e menor preço. Desta vez, porém, há o envolvimento direto do presidente da companhia na conversa.

Segundo o Valor apurou, em torno de 70 fabricantes de autopeças estarão na reunião com Zarlenga. Por meio da assessoria de imprensa, a GM mantém a posição adotada desde o início de não comentar o assunto.

A esse quadro se soma a aproximação com o Poder Público, que visa a conquista de incentivos tributários estaduais. Na esfera governamental, fontes informam que as negociações envolvem várias opções. A mais aguardada não apenas pela GM como por todas as montadoras que operam em São Paulo é obter os créditos de ICMS (Imposto sobre Circulação de Bens de Serviços) que se acumulam na cadeia que envolve a produção de um veículo. O crédito ocorre por conta de diferenças de alíquotas do ICMS das peças e dos veículos, por operações interestaduais na venda direta de veículos e nas exportações.

O secretário da Fazenda, Henrique Meirelles, já disse estar disposto a autorizar a antecipação desse crédito. A declaração chamou a atenção de toda a indústria. Na quinta-feira, o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Antonio Megale, disse ao Valor que pretende procurar o novo governo paulista para buscar maneira não apenas para que esses créditos não se acumulem mais como para também recuperar o que foi se acumulando nos últimos anos.

Segundo ele, cálculos da Anfavea indicam que cerca de R$ 7 bilhões estão retidos nos cofres do Estado de São Paulo. Nos últimos anos, com a aposta das montadoras nas exportação como resultado de queda de vendas no mercado interno, o acúmulo de créditos se acelerou. O governador João Doria já prometeu estender benefício à GM a todas as montadoras.

Os fabricantes de veículos sabem que dificilmente vão recuperar o total dos créditos de ICMS acumulados. Uma forma de recuperar os recursos indiretamente é por meio de um programa lançado em novembro, que permite às montadoras usar acúmulo desses créditos em compras de peças de ferramentaria produzidas em território paulista.

A GM é uma das mais interessadas numa aproximação com o governo paulista para pedir benefícios tributários porque boa parte da sua produção se concentra no Estado. Como outras montadoras com fábricas em São Paulo, a GM sofre a concorrência de fábricas de outras marcas localizadas em Estados cujos governos ofereceram longos prazos para pagamentos de tributos como forma de atrair investimentos.

A direção da GM parece estar com pressa. A agenda da semana já começa carregada. Hoje, enquanto Zarlenga estiver reunido com fabricantes de autopeças, outros diretores da montadora vão comandar mais uma reunião com os dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos.

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